Virgínia criança

A história de Maria Virgínia


Virgínia criança

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VIRGÍNIA CRIANÇA
Heloisa Pires

Virgínia era a mais velha. Menina bonita, morena, olhos negros e muito brilhantes.

Responsável, cuidava dos irmãos como se fossem seus filhos.

Dialogando, conseguiam que a menina obedecesse; mas reagia teimosamente quando pensava que o pedido era injusto ou desnecessário. Deixava a doçura de lado e lutava por seus direitos ou pelos dos irmãos.

Desde cedo revelava as características de uma personalidade amorosa, mas forte e corajosa.

O avô Ferraz era alegre, brincalhão, mas homem de opinião. Espírita numa época em que isso era raro, lutava para a divulgação da sua doutrina e enfrentava opiniões contrárias.

Um grande amigo seu, Pedro Amar, o apoiava e, mais do que o avô, enfrentava os que diziam que os espíritas eram loucos perigosos.

Virgínia acompanhava a coragem na fé do pai e do sr. Pedro Amar.

A infância foi feliz, os pais se amavam e adoravam os filhos, a fazenda era imensa, cheia de árvores frutíferas, as brincadeiras eram acompanhadas pela risada de funcionários amorosos.

A casa era farta. Avô Ferraz controlava a produção de café e, mais tarde, também uma loja de carros.

Avô Ferraz falava alto, entusiasmado; era otimista.

A vida era tranqüila, e nada os preparava para os problemas que viriam.

Muita correria, o aconchego dos pais, os limites e a educação firme faziam com que continuassem adolescentes felizes.

A casa vivia cheia de amigos, mas a família já era suficiente para encher de alegria a fazenda: sete filhos, quatro mulheres e três homens.

Os professores vinham em casa e as noites eram aproveitadas, as primeiras horas para a conversa, o chá, a ligação dos corações.

Amélia, a caçula, ficava com os olhos marejados quando lembrava da infância. Virgínia já era prática e preferia ficar mergulhada no presente.

Provavelmente de outras encarnações, Vigínia trouxe o amor à leitura, aos romances, poesias, livros contendo informações interessantes. “Devorava” livros e, se não a mandassem dormir, passaria as noites lendo.

Não podia ver alguém sofrendo que corria auxiliar; sentia demais a dor do próximo. Não conseguia ficar indiferente quando os irmãos eram castigados e enfrentava os pais, o que lhe causava problemas. Conservou essa característica por toda a vida.

Sorria muito, o que a tornava mais encantadora. Foi uma criança muito amada, mas não mimada.

Talvez tenha escolhido ser a primeira a nascer para desenvolver cedo a responsabilidade e o amor ao próximo. Quando pequena, carregava suas bonecas apertadas, junto ao coração. Depois carregou com muito amor os irmãos; bem mais tarde os filhos e muitos amigos... Seu apelido poderia ser “a mãe de todos os que necessitassem”.

Virgínia sempre se destacava, pela alegria, sorriso constante, inteligência aguçada e conversa rica. O que precisasse fazer, realizava com presteza, sem reclamar.

Gostava de permanecer na cozinha observando as auxiliares do lar realizando os almoços, fazendo bolos e biscoitos. Se era talentosa na capacidade de fazer amigos, de recitar belas poesias, brilhava na arte de fazer salgados e doces. Por toda a sua vida fazia sucesso também como doceira e cozinheira.

Feminista, defendia a igualdade entre os irmãos, intuitivamente. Avô Ferraz admitia essa igualdade, e sua visão do mundo era dilatada e incompreensível para a sua época.

Respeitava o ser humano independente de sexo, dinheiro, inteligência ou qualquer outra característica efêmera.

A avó Dininha era também especial: bem mais velha do que Ferraz, aceitou o seu pedido de casamento e foram muito felizes...

Foi num lar harmônico que a menina conseguiu o desenvolvimento necessário para participar, com classe, na tarefa que realizaria na divulgação do Consolado Prometido...

 

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