PRIMEIROS PASSOS NA JUVENTUDE
Jorge Rizzini
A literatura e o jornalismo empolgavam Herculano Pires, mas desde a adolescência alimentava ele, também, o sonho de ser professor. Assim, resolvido a prosseguir os estudos, mudou-se para Botucatu, cidade em franco progresso e onde havia escola normal. Instalou-se na pensão de uma tia, mas defrontou-se com duas dificuldades: o salário como repórter do Correio de Botucatu era pequeno e as horas livres para o estudo não se conciliavam com o horário da Escola Normal. Conseguiu, mesmo assim, fazer o curso preparatório. Pouco tempo ficou em Botucatu. Seguiu para a cidade de Sorocaba em busca de melhores condições de vida. Lá, os mesmos problemas o aguardavam. Ouviu, então, do proprietário de uma gráfica, onde trabalhava, esta frase ferina: “Só estuda quem pode.”
A propósito das dificuldades financeiras que por toda a vida o perseguiram, diria Herculano Pires, mais tarde: “Tenho certeza de que fiz mal uso de dinheiro em outras vidas. Devo ter sido um perdulário!”
Em Sorocaba deixou a gráfica e tornou-se repórter de dois jornais: Correio de Sorocaba e Cruzeiro do Sul, mas as dificuldades materiais eram muitas e fizeram-no, dois anos depois, regressar a Cerqueira César. Antes passou curta temporada em São Paulo, onde nada conseguiu de definitivo.
Herculano Pires tinha vinte e um anos de idade. Não conseguira fazer o curso normal, mas, um dia, veria seu sonho tornar-se realidade: seria professor. Voltou, pois, a dirigir a Casa Ipiranga em Cerqueira César. A pequena gráfica e o jornalzinho O Porvir rendiam-lhe pouco dinheiro, mas a sobrevivência estava garantida. Nessa época já tinha contos publicados em A Cigarra, O Malho e A Revista da Semana, revistas do Rio de Janeiro com circulação nacional. Mais tarde, em primeiro de março de 1936, haveria de transformar o jornal O Porvir em uma revista literária, crítica e noticiosa, mas de porte humilde. Chamar-se-ia A Semana e teria Elias Salomão Farah como secretário.
O trabalho na gráfica era exaustivo. O pai de Herculano Pires, austero, era um tanto duro no relacionamento com o filho, mas, nas horas de folga, à noite, o jovem escritor deleitava-se lendo os romances de Mário Mariani, como A casa do homem e O pobre Cristo; Eric Maria Remarque; Vargas Vila, o célebre escritor colombiano, além dos clássicos da literatura internacional. Eric Maria Remarque foi um dos seus ídolos literários. Herculano Pires admirava-lhe “o estilo simples, direto, natural, sua maneira de encarar a vida, seu humanismo antibélico e antimilitar, antiviolento em todos os sentidos.” Mas, seu livro predileto foi Um uomo finito, de Papini. Leu-o várias vezes, o que põe em evidência sua maturidade intelectual, não obstante, ainda jovem. Quando não lia à noite, escrevia. Era comum o rapaz atravessar a madrugada escrevendo romances, novelas, poesias. Os originais se amontoavam nas gavetas: O sonho das vagas, Noites de luar, Papéis velhos, Léo, Quando o outono chegou, Destino, Poças d’água, Sub tegmini fage, Cabo Velho, Piranha & Cia., Sursum corda!... Com o decorrer do tempo, novos manuscritos surgiram: Poesias, Penumbra, O serenista, Canções de amor e da vida, Orações, Ritmos, Poemas, Atlântida, Cântico dos cânticos, O sentido da vida, Sacrifício... Quase todos esses livros inéditos e outros que viria a escrever, Herculano Pires, mais tarde, destruiu. Tinha razão, pois, ao afirmar na velhice, sorrindo, que desde jovem sofria de “grafomania”, escrevendo dia e noite... Bendita “grafomania” que enriqueceu a literatura espírita com tantas obras fundamentais e até geniais!
Cerqueira César, não obstante uma cidade pequenina e humilde, vez por outra recebia visita de personalidades famosas. O popular e querido poeta, escritor e folclorista Cornélio Pires, autor de vinte e cinco livros, entre os quais Musa caipira, que mereceu elogios, inclusive, de Humberto de Campos, esteve várias vezes em Cerqueira César.* Realizava palestras no palco do cinema Rio Branco e em plena praça principal, onde o povo se aglomerava para aplaudi-lo. Era primo de Herculano Pires, em cuja casa se hospedava. Cornélio Pires tornou-se espírita e escreveu obras doutrinárias.
* Sobre a obra de Cornélio Pires escreveu Herculano Pires no Diário da Noite: “Durante muitos anos, Cornélio Pires foi a coqueluche de São Paulo. Seus livros saíam em edições sucessivas. De repente, porém, São Paulo esqueceu-se de Cornélio. Sua obra, desalinhavada, feita ao sabor das circunstâncias, sem método e sem critério estético, nem por isso deixou de abranger áreas importantes do fenômeno cultural paulista. Se Cornélio não foi um folclorista metódico, dotado das armas modernas da pesquisa e da avaliação do material colhido, ninguém entretanto o superou, até agora, no senso de observação e na sinceridade com que efetuou uma das mais vastas colheitas de material folclórico. E essa colheita não foi realizada no asfalto, mas no mato, na convivência profunda, íntima e duradoura com a gente do mato. Por isso mesmo, a Antologia caipira, organizada por Martins Veiga com trechos de poesia e prosa de Cornélio Pires, representa um ato de justiça à memória do esquecido criador de Joaquim Bentinho.”










